'Ca$ino': Baby Keem faz All-In e prova que é muito mais do que o primo de Kendrick Lamar
Nem tudo o que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas! Em 'Ca$ino', Baby Keem abre as portas do seu passado e revela que a vida, para ele, nunca foi um jogo de sorte, mas uma questão de sobrevivência.
Hykeem Carter decidiu que era altura de deixar as máscaras de lado. Cinco anos após o impacto cultural de The Melodic Blue, o rapper de Las Vegas regressa com o seu segundo álbum de estúdio, intitulado Ca$ino.
Lançado esta sexta-feira, o projeto marca um ponto de viragem na carreira do artista, que se mostra finalmente disposto a contar a verdade sobre a sua identidade através de uma sonoridade que equilibra a vulnerabilidade com a audácia técnica que o caracteriza.
O título do álbum carrega um peso que vai muito além da estética visual. Para Keem, o conceito de "jogador" é uma metáfora dolorosa da sua própria infância, revelando que a sua estabilidade familiar foi muitas vezes apostada em mesas de jogo pela sua mãe. Criado pela tia Connie e crescendo num ambiente de incerteza, o rapper utiliza estas 11 faixas para processar traumas de perda e abandono.
Esta narrativa é aprofundada em “Booman”, um documentário de 34 minutos dividido em três capítulos que acompanha a sua jornada desde as raízes na "Section 8" ao lado de Kendrick Lamar até à ascensão na indústria. Os episódios são uma peça essencial para compreender o disco, pois contextualiza a mudança da família para Las Vegas e o vício da mãe que moldou a visão de mundo do artista.
Musicalmente, Keem desafia-se ao explorar 15 estilos de voz diferentes ao longo dos 37 minutos de duração, saltando de momentos de pura energia e "hype" para explorações artísticas que remetem a figuras como Tyler, The Creator e Aminé, visíveis em faixas como “Dramatic Girl”. A abertura com “No Security” estabelece logo o tom emocional, ao som de um piano melancólico. É um convite direto para o seu lado mais autêntico, onde a família e o crescimento pessoal ocupam o centro do palco.
As colaborações em Ca$ino surgem de forma estratégica e nunca ofuscam o protagonista. Enquanto “Birds & the Bees” ganha vida visual no videoclipe com a presença de Lara das Katseye, é em “Good Flirts” que encontramos uma das colaborações mais curiosas do disco, com Kendrick Lamar e Momo Boyd a cantarem sobre as nuances da vida doméstica, incluindo algumas indiretas subtis a Young Thug. No entanto, o coração lírico do álbum bate mais forte em “I Am Not a Lyricist”. O título, carregado de ironia, esconde aquela que é possivelmente a escrita mais afiada e honesta que Keem já entregou aos fãs.
O encerramento do disco é um murro no estômago. Em “No Blame”, que conta com a participação de James Blake, Keem partilha a memória de esperar pela mãe de pijama enquanto a sua avó tentava protegê-lo com mentiras sobre o paradeiro da mesma. É uma carta aberta de perdão que encerra a jornada.
Com este lançamento, Baby Keem prova que conseguiu não só cumprir as expectativas deixadas pelo seu álbum antecessor, mas também elevar-se ao patamar de um contador de histórias nato, provando que na roleta da música, a autenticidade é sempre a aposta vencedora.

