Vieram pelos estragos, mas um dos estragos era a solidão...
Dia 2 do Francisco Mendes em Leiria, a acompanhar a mobilização de todos o que estão a ajudar na reconstrução desta zona.
A paisagem continua despenteada, descabelada. Este é provavelmente um eufemismo injusto de quem ao segundo dia já banalizou o que não se pode banalizar.
Há muitas histórias por aí. Avancei para Ourém. Está lá um grupo da Missão País.
A Missão País leva jovens universitários a viverem a fé católica em missão, em várias zonas de Portugal, todos os anos.
Este ano não é diferente, são 75 pontos do país que receberam mais de 4000 mil jovens, disponíveis para o que fosse preciso na sua pausa entre semestres.
Não vale a pena entrar em pormenores: Ourém precisava. E 60 deles avançaram, literalmente do dia para a noite.
Resultado? Novos especialistas em telhas.
Já fazem parte das conversas de jovens que acharam que nunca seria preciso saber distinguir a telha Lusa, da telha Algarvia, da telha de Porto de Mós, da telha de Marselha… (gosto de pensar que há 30% a ler “têlha” e 70% a ler “tâlha”)
São especialistas porque estão no Estaleiro da Proteção Civil de Ourém. Ficaram aqui porque vieram na segunda carregar material e o Bernardo (que é fotógrafo, mas que está voluntariamente a coordenar o Estaleiro) disse que precisava deles a semana toda.
“Aqui chega muita gente, vê-se de tudo. Pobres e ricos precisam de telhas, algumas que já não são fabricadas. Alguns voltam porque os toldos que puseram voaram na noite anterior.”
Também se veem pessoas a reclamar, e uma ou duas que põem de lado umas tendas que precisam para ninguém encontrar e poderem vir buscar mais tarde. Vê-se muito bem, bem feito, mas também não é um mar de rosas.
“Mas o que mais me impressiona é que aqui, num centro de distribuição, já depois de terem levado o que precisavam, há pessoas que ficam a falar connosco, e se agarram se a nós, e choram”.
As pessoas.
Há muitas pessoas em casa, todos são poucos para ir ter com quem está isolado e perguntar pelos estragos.
Uma outra parte do grupo da Missão está a fazer exatamente isso, vai para as aldeias perguntar do que é que as pessoas precisam. E aí perceberam que as pessoas precisam de água, de luz, de telhado. Mas também precisam que alguém que fique a passar a tarde.
Os missionários vieram pelos estragos, mas um dos estragos era a solidão.
E por isso repararam como puderam a tarde da D. Arminda.
“A D. Arminda vai adorar falar para a rádio, passa o dia com ele ligado e pára tudo o que está a fazer às 20h30 para ouvir o terço.”
“Estiveram aqui comigo, foi uma tarde muito bem passada. Ontem foi mesmo muito mau, estava preocupada que a água estava-me a chegar dos dois lados. Estar com eles foi melhor que uma psicóloga. Bebemos café, rezámos, cantámos. Cantaram músicas dos alentejanos, que eu gosto muito.”
(Sorte dos Vizinhos, dos Descendentes, dos ÁTOA, dos Bandidos do Cante, do Buba Espinho, do Luís Trigacheiro, do António Zambujo, do Vitorino, que têm uma D. Arminda a gostar deles!)
São precisas tardes bem passadas, antes e depois das tempestades.
Não sei se a Missão País vai mudar o mundo, mas sei que vai ter com o mundo.
Também não sei se vai salvar a humanidade, mas sei que escolhe estar, ouvir e falar. Faz isso com humanidade, e essa humanidade pode salvar.



